Sem braço.

Vovó e eu – Natal de 2006

Eram quase cinco quando ouvi o grito que já me era tão peculiar. Desci as escadas apressada e tropecei nos brinquedos das filhas da vizinha, todos espalhados no chão. Xinguei baixinho e tentei abrir a porta, que ainda estava trancada apesar da notável agitação do outro lado da fechadura. Minha mãe, em prantos, meu avô atordoado e nessas horas sempre foi de minha responsabilidade os dotes médicos. A ordem de sempre: deitá-la de lado, pulso, pressão, medicação, espera. E dessa vez tive a absoluta certeza de que seria a última vez que esperaria por algo.

Fiica, Marianinha, Luzinha, Mônica, Tio Mário, Tio Nenzinho, Tio João, Tio Zico, Tia Vininha; todos irmãos, todos mortos.  Fui em inúmeros velórios de pessoas queridas desde os 6 anos de idade, não tenho problemas com o luto, mas em nenhum senti metade do vazio de hoje. Talvez porque não fosse a minha avó, talvez porque quando uma pessoa morre, a gente morra também um pouquinho junto, e nunca tinha perdido ninguém que fizesse parte do meu dia-a-dia de forma tão ativa. Vou contar pra vocês que não é drama, nem exagero, mas perder alguém pra Deus, dói.

Liguei para o resgate e ainda arrisquei uma última massagem cardíaca. Ela reagiu. Com o coração fraquinho, achei que mais uma vez tinha a vida dela na palma da minha mão, mas não somos , de fato, responsáveis pela vida ou morte de alguém. E eu já havia entendido isso.

Comecei a lembrar de todas as coisas que ela havia conversado comigo pela manhã, durante a semana, nos últimos 5, 10, 16 anos. Da última pizza que comemos juntas, e ela amava a de Portuguesa. Das coisas que ela me ensinou, dos namorados que conheceu, dos conselhos, do cheiro, da voz, das coisas que ela queria viver e não viveu. Da filha recém nascida  do meu primo, que ela nem sequer pegou no colo, da música preferida, da incrível paixão que ela tinha por dançar, do gosto do feijão que só ela sabia fazer, do meu casamento. Dos cachecóis, enxovais, mantas, sapatinhos, das palavras de sabedoria. Lembrei que me irritei com ela tantas vezes, que deixei ela chateada comigo mais umas muitas outras, que fui estúpida, desbocada e achei que ela seria pra sempre. Lembrei que ela me disse que iria morrer em breve e que eu fiquei enraivecida. Desistir de viver, era pros fracos.

Lembrei da minha mãe, das minhas tias, primos, amigos chegados, vizinhos…Chamei o prédio inteiro pra ir em casa, liguei para todos os telefones que pude encontrar, na esperança de que a dor, latente, se  dividida entre tantos corações que a amavam, fosse embora do meu. Mas como eu canso de dizer por aí, só o tempo sara essas feridas inevitáveis, apaga de levinho a lembrança e põe o sorriso no rosto da gente de volta, sabem como é.

É como perder um braço: você sente que ele está lá, mas não pode mais contar com ele. Um buraco na alma, um trauma, aquilo que nos preparamos para viver o tempo inteiro, mas que não conseguimos sequer imaginar o que será de nós quando acontecer.  E aconteceu. E ao longo da vida acontecerá muitas e muitas outras vezes, mas, jamais, será no tempo que nos parece certo.

One response to this post.

  1. Que linda essa homenagem à sua avó. Queria te dizer que uma hora passa, mas não. Elas são eternas. Existe coisa mais deliciosa que avó?
    Eu até hoje sonho com a minha, sinto o seu cheiro, e ouço sua voz, que sei o tom de cor na minha cabeça.
    Mas esse é o ciclo da vida, e viver significa aprender a lidar com a perda e com a saudade.
    Te amo, erickão! Sinta-se abraçada bem forte!

    Responder

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