Desigualdades.

Santos, assim como muitas outras cidades do mundo, é um lugar contraditório: aqui ou se é rico ou pobre. Ou se tem condição de pagar uma boa escola e se considerar acima da média ou não e essa divisão de mundos se dá, via de regra, logo na educação de base.

Quem vive num mundo onde chuveiro encanado e ar condicionado são luxos desmedidos sonha em ter um emprego legal, fazer faculdade, conseguir sair de férias com a família ou coisa do tipo. Sonhos simples. Aqueles que todo mundo deveria ter o direito de poder sonhar e que vão além de um simples prato de comida.

Quanto mais se tem, mais se quer. E quanto mais se conhece sobre riquezas, mais os desejos tornam-se gigantes, a ponto da felicidade ser baseada no simples fato de ter. Aliás, fato que de simples num tem é nada.

Com dinheiro se compra liberdade. Pode-se ir de Londres ao Senegal num piscar de olhos, dar o que existe de melhor para os filhos sem se preocupar com absolutamente mais nada além de viver e usufruir daquilo que possui. Se eu disser que dinheiro não compra felicidade eu estaria cometendo um pecado maior que matar a própria mãe. Já pararam pra pensar o que é não ter brigas em casa devido a contas atrasadas? Poder comer o que quiser, quando, como e onde quiser a qualquer hora? Conhecer lugares distantes, ter carro, plano de saúde dos melhores, 167% de conforto em todo e qualquer momento da vida? Eu já. Aliás, eu vejo isso acontecer em famílias amigas todos os dias, escuto sobre lugares que eu talvez nunca vá conhecer e valores que eu jamais imaginava que seriam capazes de sair do trabalho de uma única pessoa. Gente que ganha o suficiente para alimentar uma favela. Talvez uma cidade.

E essas pessoas vivem num mundo paralelo, se acham pobres. Ou não tão ricas assim. Sempre conhecem alguém que ganha valores HOMÉRICOS, mais que presidente da República, mais que Paris Hilton, mais que o cara de Microsft, mais mais e muito, muito mais. E saem dessa linha de partida em busca dos próprios sonhos, às vezes acreditando que ganhar 17 mil reais por mês talvez seja pouco.

E sabe, tem gente que acha que vai ser infeliz se ganhar os tais 17 mil e gente que tem certeza que nunca vai passar por esse problema. Gente que acha que basta ser bom e gostar daquilo que faz para que o retorno seja garantido. Gente que sofre com a idéia de, talvez, ser média. Classe média. Vida média. Funcionário. Empregado. E é complicado ser médio ao lado de quem quer ser muito grande.

Todo mundo sabe que o sol nasce para todos, mas que não é só esforço e talento que faz com que as pessoas realizem sonhos. Há quem diga que quem nasce na favela pode se tornar empresário, que o presidente, olha ele de novo, é um semi-analfabeto sem dedo e ta aí, governando um país. Mas eu acho que não é assim, eu não sinto assim e vou contar, eu DE FATO SEI que não é assim.

Enquanto eu reclamo de não ter dinheiro pra sair de balada, sei lá, os trintinha do final de semana, tem gente no mundo que não ganha 30 reais pra alimentar uma família e isso me incomoda. Me incomoda também os tais concursos públicos. A idéia de fazer uma única tarefa pro resto da vida para ganhar 20 mil por mês, por si só, já me é entediante. De não ter prazer no meu trabalho, de ter rotina, só pelos tais 20 mil. Me chamem de maluca. Me chamem do que quiserem chamar. É bem provável mesmo que seu eu pudesse trabalhar em algo que eu ganhasse 20 mil reais por mês eu jamais jogaria isso pro alto, estando feliz ou não. Talvez por essa razão mesmo eu não preste concursos, tenho medo de passar. E ficar escrava dessa realidade mesquinha que iria me martirizar para todo o sempre em troca de conforto; que eu certamente, com o passar do tempo, já nem acharia mais tão confortável assim. Quem ganha 20 mil só sabe que ganha muito, mas acha pouco. Acreditem.

Só de falar desse assunto eu me arrepio, tenho muitos medos. E muitos sonhos, desejos, frustrações passadas, pressão familiar e um sentimento de fracasso que não cabe em mim. Parece que eu preciso ser, ter, parecer mais o tempo todo. E hoje eu nem sou, nem tenho e nem pareço nada. Hoje, aos 22 anos, me vem na cabeça a idéia de fracasso, já me sinto velha pro mercado de trabalho. E meio sem instrução, sem condições de melhora, e tudo isso é MUITO LOUCO, porque, afinal, quem nesse Brasil faz faculdade, meu Deus?

Quem estudou a vida toda em escola particular?

Quem consegue pagar tudo de melhor para os filhos, dar carro, viagens, estudos, lazer e qualquer outra coisa além disso? E MUITO além disso?

Eu volto pro esquema de ser privilegiada, só que é aí que tá. Pouca gente que se encontra no mesmo umbigo de mundo que eu fui criada tem MUITO MAIS. Gente de valor, que trabalha duro e é inteligente mesmo. Gente que estuda, gente que PODE, QUE QUER, CONSEGUE E TEM, mas uma minoria assustadora de gente. Que se eu não conseguir alcançar eu vou sofrer, mesmo sabendo que tudo isso, talvez, não seja nem o que importe para ser feliz.  Aliás, sabendo que, de fato, a gente precisa de muito mais de outras coisas e muito menos do que a gente imagina e deseja pra ser feliz. Ser gente grande é cruel.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: