Migalhas.

Você sabe que ele não é o seu número e nem nunca vai ser. Sabe também que algumas coisas pequenas vão causar grandes discussões, não gosta do jeito que ele arruma o cabelo, aquela banda preferida dele é irritante, o vício pelo futebol, insuportável. Mais de uma vez ele já deixou de te ligar quando você desejava. Ele disse que você estava gorda naquele dia terrível de TPM. Você ama a natureza e ele a tecnologia. Você é apaixonada por carros e ele nem sabe dirigir. A família dele é daquelas ciumentas que quer te derrubar. Você finge ser forte e diz que não tá nem aí. Ele também. Mas no fundo ambos se importam, e bastante. Você se arruma prum desfile internacional e ele te leva pra comer coxinha de buteco e ver o jogo do Timão. Não comenta que você fica linda até de chinelo Havaiana, não repara que você cortou o cabelo e que está usando a calça nova que ele te deu de presente (que, aliás, você detestou).

E você continua com ele. Você continua com ele porque acredita que as pessoas mudam quando o amor está dentro delas, porque você acha que merece que alguém mude por você, mas ninguém muda por alguém. Muda quando acha que se torna infinitamente melhor sendo feliz com o outro. Aí sim. Mas esse nunca foi o seu caso. Mas ainda assim você insiste porque é muito frustrante admitir que uma coisa da qual você esperou tanto que funcionasse está fadada ao fracasso. É deprimente a sensação de que você não é absurdamente sensacional para o outro como desejava.

Você sabe que àquele tipo de relacionamento te deixa insatisfeita por mil motivos, que está aquém das suas expectativas e fica se enganando achando que é exigente demais. Você sabe o que busca e fica em vão colhendo migalhas das sutis demonstrações de afeto pra se alimentar, achando que vai vir um estalo, um big bang cardíaco e ZÁZ. Ele vai se tornar O CARA. Não vai. Mas você sempre acha que sim. E se empolga com nada. Tsc, tsc, tsc.

Você quer presença, contato, carinho, dedicação, parceria, compreensão… Você quer simplesmente a união daquilo que faltava em cada um dos relacionamentos anteriores. E quer tesão, animação, pele, planos, sonhos. Quer ESTAR. E não pura e simplesmente se ajuntar por inércia. Quer ligações, quer mensagens, quer desejo de se ver sempre. MÚTUO DESEJO. Quer voltar a acreditar, quer entrega… E as pessoas andam com muito medo de se entregar nos dias de hoje. E nos dias de ontem também. E sempre. Como se a maior prova de coragem e independência do mundo fosse cercar corações vazios. Nossos próprios corações vazios.

E também, sinceramente, nada mais te atrai. Porque de tanto conhecer e procurar você anda cansada. E desacreditada também. E se algum dia isso vir a acontecer tudo bem, se não, tudo bem também. É triste quando passamos a desconfiar da existência do amor.

2 responses to this post.

  1. Posted by Paula Lette on 18/03/2010 at 14:14

    Caraaaai, meninaa! É ISSO! hahahahahahaha. Isso que eu penso e isso que eu sinto! Arrasou! O amor pra mim hoje não é nem mais secundário: é terceirizado! Hahaha. Mas aí a gente se apaixona de novo e começa TUDO outra vez.

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  2. lindo, lindo. a gente nunca deveria se contentar com migalhas, com uma fração mínima daquilo que realmente queremos.

    Responder

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