um bom escravo.

Conheci, ao longo dos meus anos de conselheira amorosa informal, uma série de bons namorados. Na verdade, quando escutamos a versão parcial de uma história de amor, sempre tendemos a culpar a outra parte por qualquer possível fracassso no relacionamento, é inevitável. Tento ao máximo ser neutra. Mas, sabe, há pessoas que são realmente problemáticas.

Tudo era bom e funcionava. Eles se viam todos os dias, se falavam todos os dias, amavam verdadeiramente um ao outro. Por ter amigos em comum era fácil sair em grupo, fazer programas animados, juras idiotas, era tudo muito simples e prazeroso como a paixão deve mesmo ser. Ele fazia de tudo para agradá-la e ela era daquelas difíceis de impressionar. Eram presentes, mimos, visitas inesperadas, o namoro ia muito bem.

Penso que quando se tem tudo que espera-se ter as coisas perdem um pouco a graça. E partindo desse pressuposto ela passou a tornar-se exigente. A vida impôs que eles já não tivessem mais tanto tempo para se ver e, assim sendo, todo e qualquer tempo livre dele deveria ser dela. Por obrigação. Nada de tocar guitarra. Nada de jogar futebol com os amigos. Se ele fosse à padaria, deveria dar um jeito de avisá-la. Se estivesse em casa, deveria estar online e dar atenção, jogos, trabalhos da faculdade, televisão… Nem pensar. Ela não gostava de dividí-lo nem com a mãe dele. Muito menos com o pai. Ela não queria mais que ele desse festas. Aqueles mesmos amigos que antes eram parcerias divertidas, agora eram concorrentes. A vida dele deveria ser dedicada à ela.

Para fazê-la feliz, bastava ser um bom escravo. Fazê-la feliz era mais importante que a própria felicidade dele em relação ao namoro. Aliás, namorar no coneito dela, resumia-se, creio eu, ao fato dele atender toda e qualquer exigência. Por mais absurda que fosse.

Ele não podia estar cansado, ter um dia ruim e pegar no sono sem avisá-la. Ela fazia birra, gritava, reclamava e sumia do planeta Terra pra ele ficar com bastante remorso por ser um namorado ruim. Por ser o PIOR namorado do mundo, aliás. E não parava por aí. Ela desistia do relacionamento a cada 5 dias. Falava pra ele se considerar solteiro pelo menos uma vez por semana. Dizia que eram incompatíveis, que não funcionavam, que ele a magoava e que nada aprendia sobre o que a fazia sentir-se mal. E ele sempre se desculpava, com ou sem razão. E corria atrás, ligava e piorava ainda mais o monstro egoísta que vivia nela.

Um dia ele cansou. Resolveu não ligar. Resolveu ignorar. E morreu de medo dela não correr atrás dele, dela querer terminar. Obviamente, esse dia durou bem pouco. A escolha, afinal, apesar dos conselhos, não era minha.

Há pessoas que não enxergam aquilo que merecem. Há pessoas que acham mesmo que podem mudar as outras pela insistência. Há quem mude. Mas acho que às vezes, para que as coisas se resolvam só é preciso ser escravo de uma pessoa. E amar a si mesmo em primeiro lugar.

4 responses to this post.

  1. Posted by Matita on 05/12/2010 at 20:32

    Não dá para entender quem se satisfaz com um “escravo” e acha que isso é natural. Ele teve a chance de pular fora, não foi dessa vez, mas outras oportunidades surgirão e quem sabe com elas a coragem.

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  2. Posted by Tayan on 06/12/2010 at 00:09

    What a bitch! So sad! Abaixo a escravidão do amor!

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  3. Pessoas inseguras gostam de testar limites, botar a prova o amor do outro. Lembra qdo eu te disse isso?

    Sinceramente? Acho que ela precisava e queria ouvir uma reação dele. Pessoas passivas dão medo e as ativas demais acabam, por sua vez, pisando nas primeias.

    Somos horríveis, eu sei.

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  4. Posted by Giu on 11/12/2010 at 12:42

    Isso é bem coisa de quem tem tudo o que quer mesmo. Quem já teve de ter muita paciência, reorganizar as coisas por conta das circunstâncias e coisa e tal jamais faz isso, porque sabe o valor do que tem. Entendo a postura dele, o que não quer dizer que eu concorde com ela. Acho que ele deveria dar uma bela lição nela, pra ver se ela acorda pra vida, porque senão ele só está sendo conivente com esse tipo de comportamento.

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