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sem argumentos.

Não é incomum ver em ambientes públicos alguma briga de casal. Dos barraqueiros aos mais discretos o quadro é sempre o mesmo, alarmante: ele de braço cruzado com cara de poucos amigos e ela, em prantos. Sempre em prantos. Dizem que nós mulheres somos sensíveis, que choramos até em comercial de margarina e cartão de crédito, mas a verdade é que caímos em lágrimas quando queremos acabar de vez com uma discussão ou quando estamos sem argumentos. Triste chorar para provocar pena, mas às vezes vocês são tão racionais que a gente precisa apelar.

Insistimos em discussões fundamentadas em nada. Estávamos num mau dia, a culpa era da TPM, ou simplesmente queríamos um pouco de atenção. Saibam, homens, que nós adoramos uma atenção. E que quase nunca temos consciência que realizamos todo esse processo inescrupuloso de iniciar uma discussão sem maiores fins, somente para nos sentirmos ainda amadas ou pra saber que valemos a pena o desgaste verbal de vocês. Aliás, não acredito em relacionamento sem discussão, tudo o que é muito parado está doente, que nem criança apática em parque de diversão; algo não está bem.

Sabemos que gritamos sem razão e que vocês odeiam chiliques. Sabemos que por muitas vezes não há reais motivos para ter ciúmes, para nos sentirmos ofendidas ou dispensadas, sabemos quando estamos em crise mas não gostamos de admitir: é melhor ser louca que assumir que implicamos por um sem número de coisas sem sentido. Até porque vocês também piram, bem menos que nós, é claro, mas também tem seus surtos sem maiores justificativas.

Um homem, decente, é claro, quando ama, odeia fazer a mulher chorar. Odeia ser aquele que fez doer em alguma parte, que mesmo dotado de todas as razões do planeta terra nos magoou, machucou e tem na sua frente, lacrimalmente falando, a evidência do nosso aborrecimento.

E, agora, pensando melhor, a gente chora não porque não tem mais o que falar, mas porque a gente sente. E percebe que chega um momento da discussão no qual vocês devem sentir também.

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romance instantâneo.

As mulheres tem reclamado que os homens não querem se comprometer. Os homens tem reclamado que falta mulherada de qualidade no mercado. Que descompasso é esse, minha gente? Tendo em mente que tanto os homens quanto as mulheres que eu tenho contato são pessoas realmente interessantes, no sentido amplo da coisa, porque as pessoas andam se desencontrando dessa forma?

Acho que ficamos muito presos à teoria, escolhemos demais e paramos de nos envolver.

Ou porque temos medo que dê terrivelmente errado, como muitas e muitas vezes já aconteceu na minha vida e na de vocês, ou porque tememos que dê certo. Esquisito, não?  Quando um envolvimento qualquer funciona ele gera novas responsabiliades e preocupações que também podem vir a ser problemáticas. Tudo na vida tem seu lado complicado.

Ficamos sempre no raso, como crianças sem bóia na piscina. Conhecer à fundo uma pessoa demanda um tempo que hoje não temos nem para nós mesmos. A gente quer todo um romance pronto, à primeira vista, um bater de santo logo no olhar. Preguicinha de ficar perguntando sobre as preferências, discutindo sobre a vida, falando daquilo que interessa. Até porque o que é interessante pra mim pode não ser para o outro e imagina que saco ser descartada por gostar de pagode e não de rock? Melhor nem revelar certas tendências.

Gostamos e achamos confortável desconhecer. E continuando nesse ritmo é impossível ter real interesse sobre alguém, a vida não é como nos filmes, infelizmente. Na vida real ele é muito gordo, ou muito intelectual, ou muito superficial, ou muito respeitoso, ou muito cansativo, ou muito alguma outra coisa. Nosso inconsciente sabe que vai ser difícil ter alguma coisa com alguém tão diferente então nem ousamos tentar pra depois dizer por aí que a culpa é dos homens, das mulheres ou do mercado que anda fraco.

A culpa toda é da nossa lógica.

sem memória.

Desde que eu comecei a usar aparelho notei que não tenho memória pra dor. Coloco um elástico aqui, aperto dali, como algo mais duro e a minha boca rasga INTEIRA. Juro que na hora sinto dores TERRÍVEIS que, depois, eu nem lembro direito como foram. Se eu tivesse que descrever como é usar aparelho, não saberia ao certo como dizer. Poderia falar que é ruim, mas que, no final das contas, vale a pena a dor em relação ao benefício, mesmo tendo consciencia que já desejei arrancar no dedo, inúmeras vezes, cada uma dessas pecinhas malditas.

Será que é isso que acontece com os assuntos do coração? A gente se machuca, sabe que foi terrível, mas o tempo passa, as coisas cicatrizam e, quando não ficam marcas, a gente nem lembra mais que elas estiveram lá? Será que deveríamos ser assim?

Quando um namoro é saudável e os bons momentos superam as dores acho natural (e também correto) dar uma esquecidinha involuntária na parte ruim do que se viveu. Mas e quando o amor não tem cara de amor? Quando as mulheres apanham dos maridos, são abusadas pelos pais, traídas, inúmeras e inúmeras vezes? Ou quando sentem-se diminuídas, excluídas, esquecidas ao ponto de todo mundo saber que elas não deveriam mais estar vivendo tudo aquilo, mas elas estão? O que fazer? Por que essas mulheres não apresentam a menor recordação da dor?

Há quem diga que é questão de auto-estima. Que elas amam-se tão pouco que atribuem a si mesmas a culpa pelo que recebem. Acho  cômodo pensar assim. Nós não somos árvores, podemos mudar o rumo das nossas vidas à todo o momento, não precisamos ficar lá, com raízes fincadas em solo podre. E, por muitas vezes, ficamos. Insistimos em nos calar para não gerar uma briga, insistimos em não nos separar para poupar os filhos ou a imagem no trabalho, temos medo que mudar seja ainda mais doloroso que suportar.

Quero que essas mulheres (homens, crianças, adolescentes…) pensem que aceitar situações que nos fazem sofrer diariamente não é prova de coragem. É prova de que alguma coisa dentro da gente acha que precisa de punição, sem sequer existir a menor lógica de culpa.

Se você andou sofrendo mais do que merece, com certeza já aprendeu a sua lição de vida, seja ela qual for. Agora chega de ter medo de virar essa mesa. É hora de agir por você (o mais rápido possível.)